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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Os primeiros passos do samba


Quadro de Heitor dos Prazeres

Por Rodrigo Shampoo

No final do século XIX, a modinha, o lundu e o maxixe eram os ritmos musicais nacionais predominantes no cenário carioca, juntamente com os ritmos estrangeiros como a valsa, a polca e a música erudita, muito apreciada pela elite. Com a abolição da escravatura, os negros livres se reuniam nos grandes centros urbanos para dançar e cantar em cultos religiosos de origem africana, preservando sua cultura adaptada à realidade brasileira. Normalmente, os terreiros onde aconteciam essas reuniões eram as casas das tias baianas. E a mais famosa delas foi a da Tia Ciata. Lá, se reuniam também alguns nomes da música brasileira ainda desconhecidos.


Tia Ciata e Tia Josefa

Por ser a capital do Brasil, o Rio de Janeiro atraiu migrantes de todas as partes do país, tornando-se um verdadeiro emaranhado de raças e culturas. O estado desenvolveu então uma música própria, que reunia influências de quase todas as regiões do país. Essa união de pessoas de diversas raças e culturas ocorria em diversas camadas da sociedade, “desde a Casagrande à Senzala”. Foi justamente essa junção de culturas regionais que trouxe os instrumentos das zonas rurais de Minas Gerais e do Rio de Janeiro e os tambores da Bahia para se unirem aos cultos religiosos de origem africana.

E foi assim que nasceu o samba, em um cenário controverso, pois os ritmos que faziam parte da sua construção, a modinha, o choro, a marcha, o maxixe, o jongo e o lundu, ao mesmo tempo em que eram tocados em grandes salões, em casa de políticos e de intelectuais, eram também renegados por boa parte da elite e perseguidos pela polícia. O samba passou realmente a ganhar força como música nacional com o movimento modernista iniciado por Mario de Andrade e Oswald de Andrade e defendido também por Gilberto Freyre, Graça Aranha, Sílvio Romero, Lima Barreto, Afonso Arinos, entre outros, que buscavam uma valorização da “coisa brasileira”. Os ritmos nacionais, a cultura negra, o mulato e o mestiço foram os principais beneficiados por esse movimento, que seria responsável por uma “reviravolta”, que deixou de lado o vanguardismo internacional para valorizar uma imagem de cultura nacional.


Ao longo da história, há vários relatos sobre encontros de intelectuais, fazendeiros, políticos, aristocratas, escritores e outros membros da elite com músicos das camadas mais populares. Essas reuniões foram fundamentais para o surgimento de ritmos genuinamente brasileiros, como o samba, e, mais tarde, para a transformação deste samba em símbolo da identidade nacional.

Os primeiros registros desses encontros começam no final do século XVIII, com a invenção da modinha. Segundo o historiador Hermano Vianna, “José Ramos Tinhorão, um dos mais importantes historiadores da música popular brasileira, descreve a modinha como um ritmo nacional inventado por mulatos das camadas populares de se tocar canções líricas portuguesas”. As modinhas normalmente abordavam temas amorosos e eram acompanhadas por instrumentos de corda como o violão ou o bandolim.


Após a independência do Brasil, a modinha passou a ser parte integrante da corte, mesmo ainda mal vista por boa parte da nobreza. Mesmo assim, abriu as portas para a entrada do lundu na corte de Dom Pedro I. Em meados do século XIX, a renovação da modinha teve participação de vários segmentos da sociedade brasileira. Como conta Gilberto Freyre: “A modinha foi um grande agente musical de unificação brasileira, cantada, como foi, no Segundo Reinado, por uns ao som do piano, no interior das casas nobres e burguesas, por outros, ao som do violão, ao sereno ou à porta até de palhoças”.

Catulo da Paixão Cearense

Catulo da Paixão Cearense foi um bom exemplo da unificação das classes populares com a elite. Teve papel fundamental na mediação das classes sociais. Foi durante a belle époque carioca, entre 1898 e 1914 – um período em que a elite tentava pôr fim ao Brasil antigo, um Brasil “africano”, endeusando o modelo de civilização parisiense – que Catulo da Paixão Cearense e o violonista João Pernambuco conquistaram a elite com músicas regionais. Suas modinhas faziam sucesso nas reuniões lítero-musicais e nos saraus nas casas de políticos e de intelectuais, e até mesmo no Palácio do Catete.

Ainda assim, com o sucesso alcançado pela música sertaneja e pela modinha, os ritmos europeus e norte-americanos dominavam os salões durante os carnavais. Apesar do domínio estrangeiro, o repertório da folia brasileira era bem variado, ía desde o lundu, o maxixe e o xote à valsa, ao foxtrote e à polca. Essa mistura de música estrangeira com alguns ritmos nacionais imperou por décadas nos carnavais até o samba se consolidar, em meados da década de 1930.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Estamos no caminho certo

Matéria de “O Globo” de ontem (14/08/2011)


Por Rufino Carmona

Meu domingo sempre começa do mesmo jeito: levanto, abro a porta de casa e pego “O Globo”. Abro o jornal direto em que seção? Claro! Na seção de Esportes. Ontem, também foi assim. Mas teve um gostinho todo especial. Eis que nas páginas centrais do caderno, dou de cara com um tema muito semelhante ao que o nosso historiador, e agora jornalista, Carlos Pinho, escreveu em 3 de maio desse ano: “Catalunha X Realeza muito além dos gramados”.

É muito gratificante notar que “O Globo”, o maior jornal do país, se aprofundou em um assunto que nós havíamos tocado há três meses, quando Barcelona e Real Madrid disputavam a semifinal da Liga dos Campeões da Europa.  

Nosso blog é fruto de um trabalho conjunto de uma equipe pequena, que tem um milhão de outros afazeres, mas que se esforça, ao máximo, para lhe entregar diariamente matérias de qualidade. E vejo que estamos no caminho certo, com bons textos e temas que, além de instigarem o leitor, estão na pauta de grandes publicações.

Parabéns Carlos Pinho, parabéns a toda equipe da MercadoCom e principalmente a você, querido leitor, que nos prestigia diariamente. 

Matéria do blog da MercadoCom de 3 de maio de 2011


quarta-feira, 4 de maio de 2011

O feitiço de Noel Rosa


Por Carlos Pinho

Sambista por natureza. Poeta em sua essência. Boêmio de corpo e alma. Assim era Noel Rosa, o poeta da Vila, dono de uma obra riquíssima para uma vida abreviada precocemente. Nascido de um parto difícil, os médicos tiveram de usar um fórceps para salvarem a mãe e o filho, causando-lhe a marcante lesão no queixo. Além disso, tinha um problema pulmonar crônico.

Uma preocupação que acabou em samba.

Desde muito cedo, o aspecto franzino de Noel foi motivo de preocupação de sua mãe, dona Marta. Ela não gostava das escapulidas do filho, exigindo-lhe que voltasse cedo para casa. Certa vez, escondeu todas as suas roupas, ao saber que ele sairia num sábado. Os seus amigos, ao chegarem para apanhá-lo, ouviram de um confuso Noel: “Com que roupa?” A situação inusitada virou samba e sucesso no carnaval de 1931.  

A faculdade de medicina

Autor de pérolas da nossa música, como “Feitio de oração” e “Conversa de botequim”, poucos sabem que Noel quase enveredou na carreira de médico. Do período na faculdade, compôs “Coração”. Perdeu-se um médico. Ganhou-se um mestre do samba.

Noel Rosa X Wilson Batista


Noel travou, em sua curta carreira, uma disputa que ficou marcada na história do cancioneiro popular, com o, também sambista, Wilson Batista. Por meio de canções, ambos se alfinetavam e a “briga cantada” teve grande repercussão. Só para se ter uma ideia, a partir dessa rivalidade, surgiram lindos sambas, tais como “Feitiço da Vila” e “Palpite infeliz”.

Mensageiro entre dois mundos

Noel teve grande importância na história do samba, levando o gênero do morro para o conhecimento do asfalto. Numa época em que a distância entre o morro e o asfalto era gritante, o poeta da Vila Isabel – área de classe média – era frequentador assíduo das periferias, onde fez amizade e sambas com nomes do calibre de Cartola, Heitor dos Prazeres, Donga, Ismael Silva, entre outros.

Suas composições são retratos de sua época, verdadeiras crônicas musicadas, feitas sobre os casos mais corriqueiros. Exemplo disso, foi o samba “Não tem tradução”, sobre a moda dos estrangeirismos na nossa língua, causada pela onda dos filmes franceses e americanos ("Amor lá no morro é amor pra chuchu/ As rimas do samba não são ‘I love you’/ E esse negócio de ‘alô’, ‘alô, boy’, ‘alô Johnny’/ Só pode ser conversa de telefone"). Outras, possuem uma triste atualidade, como “Filosofia” ("Nessa podridão sem fim/ Vou fingindo que sou rico/ Pra ninguém zombar de mim").

A Boemia e os últimos anos


A vida boêmia acabou por comprometer a sua, já combalida, saúde. O pouco que ganhava pelas suas composições e a ajuda da mãe, Noel gastava com mulheres e bebidas, no sereno da madrugada. Sofrendo de tuberculose, morreu no Rio de Janeiro, em 04 de maio de 1937, aos 26 anos.

Abaixo, confira o vídeo com a canção "Com que Roupa?", contendo fotos desse baluarte do samba: 

terça-feira, 3 de maio de 2011

Catalunha X Realeza muito além dos gramados

Por Carlos Pinho

No mundo do futebol, existem várias equipes que rivalizam e proporcionam partidas de grande repercussão. No Brasil, por exemplo, o clássico mais conhecido é o Fla X Flu. Entretanto, nos últimos anos, nenhum jogo conseguiu movimentar tanto os amantes da bola como um Barcelona e Real Madrid.

Mas vamos, para além dos gramados, conhecer como surgiu essa rivalidade. Ela nasceu a partir de questões sociais, políticas e culturais das regiões onde se encontram esses clubes. E o que isso tudo tem a ver com o futebol?

A cidade de Barcelona é a capital da comunidade autônoma da Catalunha. O idioma catalão é preservado, assim como a sua cultura. Mas não possui autonomia política. O nacionalismo catalão é muito forte e o estatuto espanhol prevê o direito à sua nacionalidade. Algo que, em outras épocas, não existia.  E a equipe da capital foi um símbolo de resistência. Em 1925, durante a ditadura de Primo Rivera (1923-1930), a torcida barcelonista vaiou o hino da Espanha. Em represália ao ato, o clube foi fechado por seis meses e o seu presidente na ocasião, Joan Gamper, pressionado, teve de renunciar. No regime ditatorial do General Franco (1939-1975), as manifestações culturais, que não as castelhanas, foram oficialmente proibidas. Um dos poucos lugares onde se podia falar o idioma catalão era no estádio do Barça, o Camp Nou. 

 Di Stéfano, pelo Barcelona

 Di Stéfano, jogando pelo Real Madrid
Já o Real Madrid é o time da capital espanhola e representa a nobreza e o poder de Madrid. O “Real” que inicia o nome do clube merengue é um título concedido pela realeza. Contudo, a rivalidade acirrou-se a partir de 1953, com a polêmica transferência do craque argentino Alfredo Di Stéfano, do Barcelona para o Real Madrid. Na época, o Real estava em decadência e o grande time madrilenho era o Atlético. Mesmo assim, os torcedores do Barcelona não se conformaram e viram o caso como uma “traição” por parte de Di Stéfano.   

 Messi (Barcelona) e Cristiano Ronaldo (Real Madrid)

Hoje, essas duas equipes de vastas histórias e tradicionalíssimas vão se enfrentar novamente pela fase semifinal da Liga dos Campeões da Uefa. O jogo será realizado em Barcelona e o clube catalão tem a vantagem do empate e de perder por até um gol de diferença, já que no primeiro jogo, em Madrid, venceu o Real por 2 a 0. Ironia ou não, o time da Catalunha poderá ser campeão da Europa na casa do maior rival, o Santiago Bernabeu, sede da final desta edição do torneio.